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O Brasil virou manchete


    Por Marta Barcellos, para o Valor, do Rio, e Robinson Borges, de São Paulo
    18/12/2009
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Assunto do "The New York Times",...

Quando o "Financial Times" escreveu, em um suplemento especial sobre o Brasil, que o país já era levado a sério pela comunidade internacional e estava driblando a crise econômica, a marolinha prevista pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda era vista com reserva. O caderno, com quatro páginas, foi publicado em 7 de julho. Dois meses e muitas reportagens favoráveis na imprensa estrangeira depois, o francês "Le Monde" citou a imagem criada por Lula para explicar a rápida recuperação da economia brasileira. Mas a crista da onda verde-amarela na mídia global ainda estava por vir, quando o Rio foi escolhido sede da Olimpíada de 2016, e a imagem do Cristo Redentor se espalhou pelos mais diferentes veículos, até aparecer "decolando" na capa da "The Economist", no mês passado.

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"El País"

Em 2009, o Brasil ampliou o espaço na agenda global e a visibilidade na mídia internacional ganhou novo impulso: o país foi retratado com riqueza de detalhes e complexidade rara no século passado. O balanço da imagem que surge desse reconhecimento externo é positivo, embora matérias e artigos estejam repletos de ressalvas sobre os desafios que o Brasil precisa enfrentar e os problemas crônicos em relação a temas como segurança, saúde e educação. Apenas 15% do material publicado têm viés negativo, segundo pesquisa realizada pela CDN Análise & Tendências, empresa contratada pela Secretaria de Comunicação Social (Secom), ligada à Presidência da República, para monitorar o que se escreve sobre o Brasil no exterior.

Entre os 43 textos diários publicados, em média, sobre o Brasil nos 49 principais veículos internacionais, o destaque tem sido para o fato de a economia e a estabilidade político-institucional promoverem o desenvolvimento do país. A dúvida que emerge, entretanto, é se esse desenvolvimento será sustentável diante de grandes fragilidades de infraestrutura, de desenvolvimento humano e de questões ambientais, especialmente as ligadas ao desmatamento da Amazônia.

"A cobertura mudou consideravelmente", observa Larry Rohter, correspondente do "The New York Times" no Brasil entre 1999 e 2007. "A imagem do país suplicante, cliente do FMI, contrasta com a do Brasil reconhecido pelos investidores, cuja imagem emblemática foi a capa da 'The Economist'", afirma o jornalista americano, que teve seu visto temporário cancelado, em 2004, por ter escrito reportagem sobre suposto envolvimento do presidente Lula com bebida alcoólica, episódio que considera superado.

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Das revistas "Der Spiegel" e...

Para Rohter, a cobertura, hoje, é muito mais ampla do que quando começou seu trabalho no país. Destaca avanços na economia e na área de tecnologia, mas faz suas ponderações. "Não é fácil mostrar tantos contrastes e complexidades. Como dizia Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes", diz o jornalista, que escreve novo livro sobre o país, a ser lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra no segundo semestre de 2010. (Leia entrevista na pág. 8.)

Com a repercussão política da cobertura internacional sobre o Brasil, os editoriais e os textos opinativos também acabaram ganhando destaque nas publicações estrangeiras, dando munição aos críticos da política externa - como no caso da visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, amplamente condenada por alguns dos mesmos jornais elogiosos em relação à economia brasileira - e da posição do Brasil em relação ao golpe contra Manuel Zelaya, em Honduras, refletido, por exemplo, em texto contundente na edição passada da "The Economist".

"O Brasil se saiu mal. Permitiu que sua embaixada se tornasse quartel-general da campanha de Zelaya, mas não conseguiu sua restituição. Bem diferente da reivindicação do Brasil de nunca intervir em assuntos internos dos outros", diz o artigo sobre as eleições de Honduras. E prossegue: "A situação era distinta, dizem diplomatas brasileiros, pois se tratava de um golpe. No entanto, o Brasil alinhou-se a Cuba e Irã e manteve silêncio quando Daniel Ortega, na Nicarágua, roubou uma eleição municipal em 2008, além de também ficar mudo enquanto [Hugo] Chávez castrava as instituições da democracia venezuelana".

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"The Economist": "A cobertura não chega a ser equilibrada, porque há um destaque maior para o lado bonito da moeda", aponta economista

A política internacional foi justamente o tema que garantiu mais espaço na mídia estrangeira, com 14,5% do total de inserções sobre o país, sendo apenas 2,2% negativas. O fato de o Brasil participar de fóruns internacionais, como do encontro do G8+5, em L'Aquila, na Itália, e da reunião dos Bric, em Ecaterimburgo, na Rússia; além de o governo permitir a instalação de Zelaya, na embaixada brasileira em Tegucigalpa, e do encontro de Lula com Barack Obama na Casa Branca, em março, foram os assuntos que chamaram mais a atenção.

As empresas nacionais, com 13,6% (apenas 1,5% negativas) das matérias sobre o país, ocupam o segundo lugar, seguidas pela política macroeconômica (8,6% positivas e 1,5% negativas), pelo desenvolvimento humano (5,4% positivas e 4,2% negativas) e por finanças (8% positivas e 1,8% negativas). Os assuntos que mais se sobressaíram foram o anúncio da descoberta do campo de pré-sal de Guará, os seminários internacionais sobre investimento no Brasil, o grau de investimento concedido pela agência Moody's, o apagão e a batalha travada por narcotraficantes com a polícia, no Rio, pouco depois de a cidade ser escolhida para sediar a Olimpíada, recorde absoluto de exposição. Temas como carnaval e turismo, historicamente associados ao Brasil no exterior, tiveram baixa adesão, e assuntos de ampla repercussão interna, como corrupção e política nacional, ocupam só 2,9% do noticiário estrangeiro (veja gráfico na pág. 5).

"A imagem do Brasil melhorou muito nos últimos três anos", analisa Bryan McCann, professor de história do Brasil na Universidade de Georgetown, em Washington. "As boas condições institucionais do país de hoje foram pavimentadas pelo governo de Fernando Henrique, e o PT as manteve, apesar da briga entre os dois partidos. Isso é bom."

A cobertura internacional sobre corrupção no Brasil mostra, segundo o professor, que esse é um problema a ser administrado pela democracia. "A corrupção não é mais vista como risco, ao contrário do que ocorre em outros países da América Latina", compara McCann, que desde o ano passado ministra um curso de pós-graduação, em português, sobre a história brasileira recente para estudantes americanos, em Georgetown. "O curso é um sucesso. Está estabelecido."

Assim como McCann, os correspondentes mais antigos no país dizem que o Brasil tem chamado mais a atenção e hoje é fácil "vender pautas" para os editores sentados do outro lado do Oceano Atlântico, que antes só se interessavam por notícias explosivas ou assuntos pitorescos. No jargão jornalístico, isso quer dizer que o oferecimento de notícias e as propostas de reportagens passaram a ser acolhidos e também a ganhar um espaço privilegiado.

"Nossas pautas concorrem com as de outros países", explica Verônica Goyzueta, que trabalha para o jornal espanhol "ABC" e para a agência Mergermarket, do "Financial Times". "Antes, ouvíamos que não havia espaço. Agora, mesmo que não haja, o editor pergunta se aquela notícia não pode virar uma análise, uma matéria diferenciada, para que possam segurar o assunto para o dia seguinte. O Brasil ganhou espaço não só por ter se tornado uma economia importante, mas também por ser o mais próximo dos ocidentais, entre os Bric", afirma a jornalista, que preside a Associação dos Correspondentes Estrangeiros no Brasil.

Foi com a ascensão dos Bric, expressão usada para designar os quatro principais países emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China), que tudo começou, acredita Ricardo Amorim, ex-diretor-executivo do banco WestLB, em Nova York. O economista acompanha com atenção redobrada a cobertura internacional sobre o Brasil para fazer análises para os clientes e também para o debate semanal na bancada que integra no programa "Manhattan Connection", exibido no canal GNT. "A imprensa internacional está desbundada com o Brasil porque percebeu o seu atraso: demorou para verificar a importância que o país ganhou com a virada relativa de forças na economia mundial", observa. "Esse processo começou em 2001, capitaneado pela China, mas só neste ano, com a crise financeira, que bateu forte na Rússia, a mídia descobriu o outro Bric, que é o Brasil."

Para Amorim, não há exageros na euforia com o país: "A cobertura não chega a ser equilibrada, porque há um destaque maior para o lado bonito da moeda. Mas temos que admitir que o Brasil fazer algumas coisas erradas não é notícia. A novidade é o Brasil dar certo."

Apesar de elogiar especialmente a linha de cobertura dos veículos britânicos, Amorim foi um dos economistas que estranharam o apoio dado pela coluna "Lex", do "Financial Times", à decisão do governo de taxar com 2% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) a entrada de capital estrangeiro, em outubro. "A medida foi um tiro no pé, fiquei surpreso com o editorial", critica.

Jonathan Wheatley, correspondente do "Financial Times" no Brasil, lembra que as colunas do jornal refletem opiniões e diz que a cobertura jornalística não tem sido unicamente favorável ao governo. "No caso do IOF, acredito que, no balanço, as reportagens foram mais negativas em relação à medida, mostrando que ela não conseguiria frear a valorização do real", afirma.

Wheatley trabalha sozinho, em São Paulo, mas tem a ajuda de outros jornalistas no caso de cadernos especiais, além do reforço dos especialistas em Londres, que cada vez mais escrevem sobre o Brasil. Eventualmente, produz reportagens de cunho social, mas seu principal foco são as informações úteis para os investidores entenderem o país.

"Cada vez mais o jornal tenta ser um fornecedor de serviços. Os marcos regulatórios, por exemplo, são importantes; o pré-sal é um grande tema." Já o "mensalão do DEM" ainda não entrou na pauta do jornal: "Só vou escrever sobre isso se começar a influenciar o quadro eleitoral do próximo ano", diz o jornalista. Ele lembra que o primeiro mensalão, envolvendo diretamente o primeiro escalão do governo Lula, ganhou destaque no veículo. As eleições, explica ele, despertam bastante curiosidade, em virtude da expectativa de como será o ambiente de negócios com o novo presidente. "Temos hoje uma produção maior de matérias sobre o Brasil porque aconteceram mudanças no país que parecem ter um caráter permanente. Todos os economistas apontam para essa maior relevância do Brasil."

Com o maior interesse pela economia brasileira, muitos correspondentes se mudaram do Rio para São Paulo, que passou a abrigar estruturas maiores de agências de notícias que cobrem negócios. Em 2000, o número de jornalistas na capital paulista era estimado em 70 pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Hoje, são cerca de 160. No entanto, a crise nas empresas jornalísticas e a valorização do real também dificultam a manutenção de correspondentes, e a associação nacional, sediada no Rio, calcula em 250 o total de profissionais no país. "O número não aumentou, porque houve um movimento migratório com a queda do dólar", diz Alicia Pardies, da agência italiana Ansa, que viu o próprio salário encolher em 45% na conversão para o real. "Em compensação, chegaram jornalistas de países que nunca tiveram correspondentes aqui, como Índia, Japão, China e Rússia."

Alicia conta que recentemente, quando um grupo de correspondentes pediu a Lula que marcasse uma entrevista coletiva com veículos estrangeiros, o presidente respondeu, em tom de brincadeira: "Por que vou falar com vocês, se já me tratam tão bem?" A jornalista observa que a imprensa local é mais dura com o governo, mas isso não significa que falte espírito crítico aos correspondentes. "Sempre cobrimos temas como violência e corrupção", afirma. Em sete anos de trabalho, ela viu a pauta da imprensa estrangeira mudar radicalmente, saindo do tripé carnaval, futebol e Amazônia para ganhar uma perspectiva mais econômica. "Antes as matérias eram quase folclóricas."

Em relação ao presidente da República, Alicia avalia que o olhar estrangeiro é mais neutro. As gafes de Lula, por exemplo, para ela não chegam a ser notícia. "Sou argentina e trabalho para uma agência italiana. As gafes do presidente não são relevantes, em comparação com o [Silvio] Berlusconi ou com a cobertura que eu fazia do [Carlos] Menem." Para Ricardo Amorim, o presidente Lula caiu nas graças da imprensa mundial menos por mérito e mais pela sorte de estar no lugar certo, na hora certa. O papel de líder dos emergentes e a bandeira ambientalista hasteada por causa da Conferência de Copenhague (COP-15), afirma o economista, foram assumidos quase por acaso. "Para completar, ele encarna a versão brasileira do sonho americano", diz Amorim.

Na opinião de Rohter, a imagem de Lula, muito mais forte no início de seu governo, foi ofuscada pela de Chávez. "Quando o povão americano pensa em um líder latino-americano, pensa no presidente da Venezuela, que é mais falastrão. Existe uma defasagem entre a realidade e a percepção, porque o Brasil é mais importante. O Brasil se destaca internacionalmente mais do que o Lula", avalia. "Quando Obama se referiu ao presidente como 'o cara', o aparelho do PT quis fazer do episódio algo maior do que era."

Curiosamente, as pautas dos jornais estrangeiros contrastam com a imagem brasileira, segundo o Nation Brands Index, que mede a percepção sobre 50 nações, a partir de entrevistas com 20 mil pessoas de diversos países. De acordo com a pesquisa, realizada pela Gfk com a Simon Anholt, a imagem do Brasil está mais associada a características de lazer e entretenimento do que a administração e economia. No geral, o Brasil ficou em 20º lugar, mas é o mais bem colocado da América Latina tanto na classificação geral quanto em cada um dos seis itens analisados: exportação, governança, cultura, povo, turismo e imigração e investimento. No ano passado, o país ocupava a 21ª posição na classificação geral.

O atributo mais relacionado ao país é a cultura: o Brasil aparece como décimo colocado do ranking global nesse item. O turismo é outro ponto alto (12º lugar), enquanto a forma como o povo brasileiro é visto no mundo coloca o país na 17ª posição. Já no item imigração e investimento o Brasil é o 21º, em governança, o 21º, e em exportação está numa modesta 26ª colocação.

O imaginário a respeito de um país ou um líder, vale lembrar, nunca começa do zero, ou do momento da chegada do correspondente estrangeiro. Doutora em linguística e professora da Unicamp, Carmen Bolognini explica que o imaginário brasileiro começou a ser construído na Europa, a partir dos relatos dos navegantes portugueses, o que explica o interesse inicial pelos aspectos exóticos do país.

"A formação imaginária anterior, constituída a partir de tudo o que se ouviu, determina as interpretações que o correspondente faz ou o que ele vai enxergar", diz Carmen. Esse imaginário, porém, está sujeito a ser reorganizado, e esse movimento começou a ser detectado nos últimos anos. "Houve um deslocamento de interesses por força do discurso ecológico, porque o Brasil passou a ser um interlocutor privilegiado. O presidente Lula tem sido recebido como o representante do país que pode salvar o mundo", analisa a professora, que investigou, em sua pesquisa de doutorado, como o Brasil foi retratado na Alemanha do século XVI aos anos 1990.

Ao longo do tempo, a imagem de natureza intocada foi sendo modificada por novas informações a respeito do samba e do futebol brasileiros. Nos anos 80, temas como violência e corrupção passaram a ser noticiados, e a cobertura sobre o país passou a ser marcada por picos de interesses, gerados por grandes fatos. Pesquisas sobre o Brasil no exterior orientadas por Carmen apontam, de fato, para uma nova posição do país, com mais destaque na imprensa internacional.

E por que os brasileiros se interessam tanto pela imagem do país no exterior? "Quando conversa com um estrangeiro, o brasileiro percebe carregar junto todo o imaginário a respeito do seu país", diz a professora. A julgar pela virada no noticiário internacional, é provável que esses contatos comecem a ser modificados, e em vez de perguntar sobre futebol os estrangeiros passem a indagar sobre a agenda econômica ou ambiental do Brasil. A peruana Verônica Goyzueta admite temer o excesso de expectativas em torno do país. "Temos que evitar o deslumbramento, ir com mais calma", recomenda. "Se bem que, pela minha experiência aqui, o Brasil é como jornalista: parece que não vai conseguir, mas acaba cumprindo os prazos."

 



 
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