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País deve ter 1º déficit com EUA
em 10 anos
De janeiro a junho,
saldo negativo vai a US$ 2,5 bi;
China toma espaço do Brasil no
maior mercado importador do
mundo
Governo afirma
que queda preocupa e que estuda
novo estímulo; para exportador,
país abandonou mercado de
manufaturados dos EUA
ÁLVARO FAGUNDES
(Folha de S. Paulo,
22/7/2009)
O Brasil deve terminar
2009 com déficit nas relações
comerciais com os Estados
Unidos, após nove anos seguidos
de superávit. Segundo
especialistas, a mudança é
reflexo da dependência das
commodities nas exportações
brasileiras e da crise na
economia americana -a pior em
mais de 70 anos.
No primeiro semestre, os EUA venderam US$ 2,5
bilhões a mais do que compraram
do Brasil, que passou a ser a
sexta maior fonte de superávit
na balança comercial americana.
Apesar de o
dado negativo com os EUA não ter
impedido o Brasil de acumular um
superávit de US$ 14 bilhões nas
suas relações comerciais nos
seis primeiros meses deste ano,
o resultado tem um valor
simbólico, já que se trata do
maior importador mundial (e que
acumula déficits gigantescos há
anos; foram US$ 696 bilhões em
2008, ou 44% do PIB brasileiro)
e, tradicionalmente, o maior
comprador do Brasil.
Essa mudança nas relações
comerciais não teve início agora
- seus primeiros sinais
começaram a surgir em agosto de
2008, um pouco antes de a crise
no sistema financeiro americano
contaminar o resto da economia
mundial. Mas ela vem ganhando
cada vez mais força. Nos seis
primeiros meses do ano passado,
por exemplo, o superávit
brasileiro com os EUA era de US$
1,54 bilhão.
A alteração nas relações comerciais não ocorreu
porque os EUA passaram a vender
mais para o país -foram as
exportações brasileiras que
tiveram queda maior que as
importações. As vendas para os
EUA recuaram 44%, e as compras,
14% (sempre comparando o
primeiro semestre deste ano com
o mesmo período de 2008).
Depois de chegar a um a cada
quatro bens vendidos pelas
empresas brasileiras para o
exterior em 2002, a participação
do mercado americano vem caindo
desde então e terminou o
primeiro semestre representando
pouco mais de 10% (foi de 13,9%
em todo 2008).
Com essa queda, os EUA
perderam para a China o status
de maior comprador do Brasil. A
participação da China saltou de
8,3% em 2008 para 15% nos seis
primeiros meses deste ano.
Para Fabio Silveira, da RC Consultores, a
explicação é que a crise nos EUA
é muito mais intensa que a no
Brasil, o que fez com que as
indústrias cortassem seus gastos
mais profundamente. Ao mesmo
tempo, o Brasil exporta
principalmente commodities (como
petróleo e suco de laranja), que
sofreram uma queda maior nos
preços que os itens
manufaturados, que têm
importância maior nas compras
brasileiras dos EUA.
O vice-presidente da AEB (Associação de Comércio
Exterior do Brasil), José
Augusto de Castro, diz que é
provável que o comércio continue
deficitário no ano que vem e
reclama que o país abandonou o
mercado americano de
manufaturados, tornando-se um
exportador de commodities.
A China, afirma Castro, tomou o
espaço de produtos como
autopeças, calçados e confecção
e, "mesmo com um superesforço",
não é provável que a indústria
brasileira consiga recuperá-lo.
No mesmo caminho vai Silveira,
para quem, em termos de
competitividade industrial, o
Brasil é o Bangu (time do
Estadual do Rio), enquanto a
China é o Estudiantes (atual
campeão da Libertadores).
Segundo ele, com as perspectivas sombrias de
recuperação das economias
americana e europeia, o Brasil
terá que voltar suas exportações
para o mercado asiático, como a
China.
Para o governo, a queda nas
vendas para os Estados Unidos
também é uma preocupação, apesar
de discordar da tese do impacto
das commodities. Para o
secretário de Comércio Exterior,
Welber Barral, o problema foi o
recuo nas vendas de bens
manufaturados -também pela crise
americana.
O secretário afirma que o governo vem tomando
iniciativas para reestimular o
comércio com os EUA, como
discussões para simplificar as
normas de comércio entre os dois
países. "Há uma tentativa para
estarmos preparados para
reocupar nosso espaço [quando a
crise americana passar]."
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