País deve ter 1º déficit com EUA
em 10 anos
De janeiro a junho, saldo
negativo vai a US$ 2,5 bi; China
toma espaço do Brasil no maior
mercado importador do mundo
Governo afirma que queda
preocupa e que estuda novo
estímulo; para exportador, país
abandonou mercado de
manufaturados dos EUA
ÁLVARO FAGUNDES
DA REDAÇÃO
O Brasil deve terminar 2009 com
déficit nas relações comerciais
com os Estados Unidos, após nove
anos seguidos de superávit.
Segundo especialistas, a mudança
é reflexo da dependência das
commodities nas exportações
brasileiras e da crise na
economia americana -a pior em
mais de 70 anos.
No primeiro semestre, os EUA
venderam US$ 2,5 bilhões a mais
do que compraram do Brasil, que
passou a ser a sexta maior fonte
de superávit na balança
comercial americana.
Apesar de o dado negativo com os
EUA não ter impedido o Brasil de
acumular um superávit de US$ 14
bilhões nas suas relações
comerciais nos seis primeiros
meses deste ano, o resultado tem
um valor simbólico, já que se
trata do maior importador
mundial (e que acumula déficits
gigantescos há anos; foram US$
696 bilhões em 2008, ou 44% do
PIB brasileiro) e,
tradicionalmente, o maior
comprador do Brasil.
Essa mudança nas relações
comerciais não teve início agora
-seus primeiros sinais começaram
a surgir em agosto de 2008, um
pouco antes de a crise no
sistema financeiro americano
contaminar o resto da economia
mundial. Mas ela vem ganhando
cada vez mais força. Nos seis
primeiros meses do ano passado,
por exemplo, o superávit
brasileiro com os EUA era de US$
1,54 bilhão.
A alteração nas relações
comerciais não ocorreu porque os
EUA passaram a vender mais para
o país -foram as exportações
brasileiras que tiveram queda
maior que as importações. As
vendas para os EUA recuaram 44%,
e as compras, 14% (sempre
comparando o primeiro semestre
deste ano com o mesmo período de
2008).
Depois de chegar a um a cada
quatro bens vendidos pelas
empresas brasileiras para o
exterior em 2002, a participação
do mercado americano vem caindo
desde então e terminou o
primeiro semestre representando
pouco mais de 10% (foi de 13,9%
em todo 2008).
Com essa queda, os EUA perderam
para a China o status de maior
comprador do Brasil. A
participação da China saltou de
8,3% em 2008 para 15% nos seis
primeiros meses deste ano.
Para Fabio Silveira, da RC
Consultores, a explicação é que
a crise nos EUA é muito mais
intensa que a no Brasil, o que
fez com que as indústrias
cortassem seus gastos mais
profundamente. Ao mesmo tempo, o
Brasil exporta principalmente
commodities (como petróleo e
suco de laranja), que sofreram
uma queda maior nos preços que
os itens manufaturados, que têm
importância maior nas compras
brasileiras dos EUA.
O vice-presidente da AEB (Associação
de Comércio Exterior do Brasil),
José Augusto de Castro, diz que
é provável que o comércio
continue deficitário no ano que
vem e reclama que o país
abandonou o mercado americano de
manufaturados, tornando-se um
exportador de commodities. A
China, afirma Castro, tomou o
espaço de produtos como
autopeças, calçados e confecção
e, "mesmo com um superesforço",
não é provável que a indústria
brasileira consiga recuperá-lo.
No mesmo caminho vai Silveira,
para quem, em termos de
competitividade industrial, o
Brasil é o Bangu (time do
Estadual do Rio), enquanto a
China é o Estudiantes (atual
campeão da Libertadores).
Segundo ele, com as perspectivas
sombrias de recuperação das
economias americana e europeia,
o Brasil terá que voltar suas
exportações para o mercado
asiático, como a China.
Para o governo, a queda nas
vendas para os Estados Unidos
também é uma preocupação, apesar
de discordar da tese do impacto
das commodities. Para o
secretário de Comércio Exterior,
Welber Barral, o problema foi o
recuo nas vendas de bens
manufaturados -também pela crise
americana.
O secretário afirma que o
governo vem tomando iniciativas
para reestimular o comércio com
os EUA, como discussões para
simplificar as normas de
comércio entre os dois países. "Há
uma tentativa para estarmos
preparados para reocupar nosso
espaço [quando a crise americana
passar]."